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12 junho 2017,
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Não seja um Garçom de Requisitos!


O Pedido

Temos que tomar muito cuidado para não simplificar o papel de um Analista ou Engenheiro de Requisitos a ponto dele se tornar um garçom.

Um garçom, mesmo muito simpático e educado, pergunta o que o cliente deseja, anota o pedido e passa para o chefe de cozinha preparar o prato ao gosto do freguês. Ele não discute ou questiona os desejos do cliente. Não tem visão crítica. Pior ainda: não percebe que o cliente, no final, vai ficar insatisfeito com o que ele mesmo pediu. Seja pela quantidade de comida ou pelo valor da conta.

Garçom: O que o senhor deseja?

Cliente: Um software de gerência de estoques!

Garçom: Pois não, sr. É para já!

Requisitos ao gosto do freguês

Requisitos ao gosto do freguês

O Cardápio

O problema é que no caso de requisitos não temos um cardápio prévio com os possíveis desejos do cliente. Um software de gerência de estoques pode ter diversas peculiaridades. O sistema tem que ter interface com o sistema de contabilidade? Quando o estoque estiver baixo já faz o pedido automático? Ou apenas emite um alerta? Manda um e-mail?

Para colocar ainda mais desafios, muitas vezes, o cliente não sabe exatamente o que quer ou sabe o que quer, mas não consegue articular. Calma! Reconheça que ele é um especialista do negócio e use diferentes técnicas para extrair o que está na mente dele.

Mesmo em um restaurante, com as opções bem explicadas no cardápio, o prato pode não vir conforme o esperado. Achei que o frango era grelhado e não frito. A batata pode ser sautê ao invés de rostie? Pequenas mudanças são fáceis de serem feitas e mal entendidos podem ser rapidamente desfeitos.

Já no software, mudanças representam um retrabalho que pode gerar meses de atrasos. Mal entendimentos podem esconder todo um módulo ou funcionalidade nova.

 

O Papel do Analista de Requisitos

Por isso, o papel do Analista de Requisitos está longe de ser apenas o de um anotador de pedidos e desejos. Pelo contrário, ele irá desempenhar uma função estratégica no desenvolvimento de software. Este profissional precisa ser questionador e ter habilidades de comunicação, negociação e abstração. Ele também tem a função de traduzir as expectativas do cliente em uma especificação compreensível para a equipe de desenvolvimento.

Ele(a) será a pessoa que fará a ponte entre o cliente e os desenvolvedores. Assim, é importante entender o domínio do negócio. Na interação com o cliente, deve tentar extrair o máximo de informações e detalhes possíveis para minimizar os problemas futuros.

 

Técnicas de Levantamentos de Requisitos

Dentro da disciplina de Gerência de Requisitos, existem várias técnicas de levantamento ou elicitação de requisitos:

– Entrevistas – estruturadas, semiestruturadas ou não estruturadas, de acordo com a experiência do Analista de Requisitos e do(s) participante(s) envolvido(s);

– Questionários – utilizados quando existe um grande número de interessados e eles estão em diversas localidades, sendo difícil o alcance presencial;

– Workshops – envolvimento de diversos interessados de maneira mais participativa e colaborativa, sendo conduzido por um facilitador;

– Prototipação – criação de telas (sem a implementação das funcionalidades) para obter e validar o entendimento sobre o funcionamento esperado do sistema;

– Derivação a partir dos processos de negócio da empresa – úteis para evitar o desenvolvimento ou a contratação de um sistema que no final das contas não apoie os processos da empresa.

As técnicas de levantamento evitarão que o engenheiro ou analista de requisitos se torne um garçom, uma vez que ajudam a extrair informações dos clientes de maneira estruturada e a analisar criticamente as informações obtidas, ajudando a entender o produto desejado.
 

Conclusão

Assim, fica combinado: não tem desculpa para ninguém se comportar como um garçom de requisitos!

 

Referências

Adzic, G. Specification by Example: How Successful Teams Deliver the Right Software. 1. ed. Manning Publications, 2011.

Leffingwell, D. Agile Software Requirement. 1. ed. Addison-Wesley Professional, 2011.

Leite, J. C. S. P. Livro Vivo: Engenharia de Requisitos. http://livrodeengenhariaderequisitos.blogspot.com.br

Pfleeger, S. L. Engenharia de Requisitos – Teoria e Prática. 2. ed. Prentice Hall, 2004.

 

Priscila Engiel
Priscila Engiel

Priscila é doutoranda pela PUC-Rio desde 2012. Concluiu seu mestrado em Sistemas de Informação pela UNIRIO também em 2012.

Experiência de participação em projetos de diferentes empresas. Atua há 6 anos como Consultora nas áreas de Gestão de Processos de Negócio (BPM), Gerência de Requisitos e Desenvolvimento de Sistemas.

Nessas áreas, possui trabalhos publicados em congressos e revistas nacionais.